2010/03/23

BULLYING - Um fenómeno que ultrapassa as paredes da Escola



Ultimamente, a comunicação social, tem divulgado várias notícias referindo problemas de violência nas escolas. Descontando o oportunismo e a falta de ética que grassa na construção de algumas dessas notícias, elas deverão preocupar-nos a todos.
Por se tratarem de realidades complexas com génese multicausal e que têm efeitos desvastadores sobre vítimas e agressores, detemo-nos um pouco na análise das possíveis razões, que podem de certo modo, explicá-la em termos de escala.
Antes de mais, manda a verdade dizer, que a violência não é um problema apenas de hoje. Ela sempre esteve presente lado a lado com o ser humano.
Nós os mais velhos, quando passamos pela escola, lembramo-nos bem de várias situações em que a violência estava presente.

Tendo consciência que nessa altura, a falta de liberdade e o atraso económico e social existentes atravessavam toda a Escola, desde logo pelo crivo que apenas deixava passar alguns para a frequentar, permitia a existência de alguns mecanismos que desencorajavam esses comportamentos a partir do “razoável”. Assim, dentro do próprio grupo de pares, havia sempre alguns mais velhos ou mais fortes, que intercediam pelos mais novos e mais fracos, não deixando ultrapassar certas barreiras.
Por outro lado, as escolas possuiam regras que também elas, desencorajavam esse tipo de comportamentos – os alunos sabiam que se ultrapassassem certos limites, apareciam as punições e que essas teriam consequências na continuação da sua formação.
Também as famílias, quando chamadas e confrontadas com acções reprováveis dos seus educandos, para além de não se virarem contra a Escola, faziam o “trabalho de casa”, como educadores de primeira linha.

Importa lembrar que é sobretudo com o 25 de Abril que a Escola se democratiza, de forma a receber no seu seio muitos alunos que antes eram dela afastados. De igual modo, se as grandes mudanças políticas, sociais e culturais, permitiram o acesso mais generalizado da mulher ao mundo do trabalho, também reduziram em muito o tempo de intervenção dos dois progenitores, no processo educativo dos filhos.
Algumas destas alterações, desejáveis e necessárias e a vivência duma liberdade durante tantos anos negada, desencadeou uma ânsia enorme para recuperar o tempo perdido. Talvez essa pressa, tenha levado à adopção de medidas exageradamente embuídas pelo politicamente correcto, que teve como consequência a Escola mais ingovernável como hoje se nos apresenta.
Mas para melhor tentar comprender os factores responsáveis pelo fenómeno que atravessa as Escolas hoje, importa debruçar-nos sobre a criança enquanto criatura que se desenvolve e se constrói sujeita a várias influências.

A criança é um ser bio-psicossocial e espiritual. A sua realização enquanto ser humano, tem em conta as suas necessidades biológicas e psicológicas, mas também aquelas decorrentes da sua relação com os outros numa sociedade organizada – que tendencialmente deverá estar virada para a realização do bem comum.
A criança é assim um ser integral, que para além da matriz genética, acopla as aprendizagens e normas sociais, os valores morais, o desenvolvimento de uma espiritualidade. Esta última, muitas vezes confundida com a religiosidade tradicional, deverá ter (e tem) um papel primordial na compreensão do ser humano, na sua relação com o mundo e a natureza.

Segundo David P. Farrington (2002), a hiperactividade, a impulsividade, o controle comportamental deficiente e os problemas de atenção, são factores psicológicos que nos permitem prever o aparecimento da violência. Assim sendo, urge que se faça uma intervenção logo que se manifestem estes factores. Para isso seria necessário que se estabelecesse um cordão virtuoso, porque protector, englobando a família e os outros agentes da saúde e educação, de forma a que se operacionalizassem as estratégias adequadas à superação das dificuldades encontradas.
Já referimos que, a família por impossibilidades de vária ordem nalguns casos e por negligência noutros, demite-se dessa sua responsabilidade e espera que outros se encarreguem de tal missão.
Com a entrada para a Escola (a começar na infantil), o cordão atrás referido, deveria ser operacionalizado, mas na maioria das vezes tal não acontece. Algumas escolas, não chegam a tentar sequer, por considerarem que não estão investidas de autoridade bastante, face às manifestações agressivas dos pais, enquanto que outras que o fazem, passam por situações que lhe trazem alguns amargos de boca.

Estamos assim, na presença de problemas cuja responsabilidade pertence a todos, embora em graus diferentes. Mais do que condenar, depois de encontradas as causas, deveremos prover à superação dos problemas que afectam não apenas as vítimas, mas também os agressores, pugnando para que se alterem as condições geradores desse flagelo social.
O agressor, que à partida é um excluído e marginalizado, é com frequência alguém que também já foi agredido, pelo que há que ter em atenção essa dupla punição.

Para finalizar e porque vivemos num tempo em que tudo (ou quase tudo), foi tocado pelo monstro da globalização, com o seu poder sem rosto declarado e assumido, onde as notícias e imagens circulam a velociodades vertiginosas, façamos apenas mais um pequeno exercício.

Estamos em época farta de "muito saber" trazido por um imenso exército de Especialistas que "calcaestrumando", conjecturam, investigam, diagnosticam, planificam e implementam soluções, que põem a descoberto e até potenciam, cada vez mais fragilidades à sociedade dos simples e indiferenciados mortais.
A título de exemplo, coloquemos os nossos olhos nos especialistas da Economia, que embora tendo ao seu serviço recursos humanos, financeiros e tecnológicos extraordinários, não conseguem criar barreiras ao vergonhoso caudal de um "Império da Vergonha" assente na iniquidade, que representa a desigualdade no acesso ao mínimo necessário à vida de muitos.
Estes especialistas, são incapazes de apresentarem propostas aos decisores políticos, que comportem a verdadeira aprendizagem das mais simples operações matemáticas.
Poderiam exercitar a operação da divisão, através da cedência dos bens que se produzem em excesso no mundo, somando-os aos parcos existentes nos países mais pobres e com problemas de alimentação. Com isso treinavam uma outra operação, (diminuindo) as carências existentes, ao mesmo tempo que multiplicavam as possibilidades de sobrevivência de todos aqueles que se encontram numa situação abaixo do limiar mínimo de pobreza.

E eu,que não sou especialista de coisa alguma, qual coração que sente e atento aos fenómenos que se desenvolvem à sua volta, pela mão do bulling aqui trouxe a Escola, também ela recheada de muitos especialistas.
Espera-se deles, para fazer jus a esse título, que ajudem a superar as dificuldades, a desbravar caminhos que indiquem um verdadeiro rumo para a formação integrar do Homem.
Mas não é isso que se está a passar nas nossas Escolas, pelo menos na sua maioria. Mas em nome da verdade, teremos que reconhecer que muitas há que conseguem, apesar das dificuldades, realizar um bom trabalho educativo.
José Augusto de Jesus Roque
S. Pedro do Sul, 19 de Março de 2010

2010/03/16

A última aula de José Gil

No passado dia 10, o filósofo português José Gil proferiu a sua última aula. Aquele filósofo foi considerado pelo periódico francês “Nouvel Observateur”, há alguns anos, um dos 25 melhores pensadores do mundo.
Um dos seus principais pensamentos incide sobre o que considera não inscrição: alheamento, não intervenção social, medo de dizer o que se pensa e de agir em conformidade, que caracteriza uma boa parte dos portugueses.
Na nossa região existe uma elevada não inscrição. Receio ou mesmo medo de dizer o que se pensa também abunda. 36 anos depois do 25 de Abril…
A comunicação social nacional, na devida altura, praticamente não referiu o facto de José Gil ter sido considerado um dos 25 principais pensadores do planeta, que deve orgulhar o nosso país. Mas “compreende-se”. José Gil não é jogador, nem treinador de futebol.
No dia da sua última aula, aquele filósofo foi entrevistado no canal 2 da RTP. Pouco antes, o Sr. Presidente da República havia sido entrevistado no outro canal estatal. A entrevista de José Gil, ainda que mais curta, foi bem mais interessante.
Manuel Silva

2010/03/10

A Escola de hoje - sociedade de todos os dias



George SantaYana escreveu: “… todo aquele que não tem em conta os erros do passado, está condenado a repetí-los”.
Vem isto a propósito da educação que temos e da educação que transmitimos nas nossas escolas aos nossos jovens. Aliás, a escola, sendo certo que se espera dela, cumpra a função de instruir, dar mais conhecimentos académicos aos seus usuários, preparando-os para no futuro exercerem uma função profissional e social, a sua função não acaba aqui. Ainda mais importante, é tudo aquilo que ela pode e deve fazer ao nível da transmissão de valores ético-morais, que nos formatem em liberdade, abrindo caminho à tomada de decisões, que não sejam lesivas do exercício da liberdade do Outro.
Mas será possível a escola educar em liberdade, quando os vários agentes educativos que a compõem, estão afectados por limitações, que os impossibilitam de cabalmente exercer os seus papéis?
Ora vejamos:
Em primeiro lugar, temos que ver que a Escola não dirige sozinha o barco da educação. Antes dela e cabendo-lhe um papel ainda mais importante, temos a família. É na família, que a aventura da vida começa. É na família, que se aprendem as primeiras palavras, se ensaiam os primeiros passos, se dão as primeiras quedas, mas também onde se aprende a levantar tantas vezes quantas as necessárias. São os modelos do pai e da mãe, para o melhor e para o pior, que vão balizar o processo educativo no seio da família. A eles cabe facultar a aprendizagem do respeito pelo outro, o exercício do afecto retemperador, a educação do olhar para a natureza mãe, a existência de limites que todos devemos respeitar.
Mas as famílias não são todas iguais. As dificuldades atravessam-nas de maneiras bem diferentes a pontos de, enquanto que algumas têm mais que o suficiente, outras há aquém quase tudo falta - habitação degradada, rendimentos insuficientes para prover às necessidades do agregado familiar, baixo nível cultural que impossibilita um melhor desenvolvimento cognitivo e outras limitações geradoras de processos de estigma e exclusão. Assim, compete à sociedade como um todo, com especial responsabilidade para os governantes, encontrar e implementar políticas que tendo em conta todos, sejam direccionadas para os mais desprotegidos aos vários níveis, que contemplem o apoio para o seu desenvolvimento e capacitação,” dando o peixe, mas desde logo fornecer a cana e ensinar a pescar” .
Em segundo lugar, acresce registar a falta de condições para o exercício da disciplina nas escolas. Esta entendida no sentido de cada um, professor, alunos e restante pessoal, poderem exercer o seu papel dentro da normalidade, naturalmente respeitando todos os outros, mas sem ser molestado por eles.
Por tudo isto e em suma, devemos pensar que a educação é, embora a sociedade moderna faça a apologia do “ter” e do “lucro”, o maior e melhor investimento da humanidade, porque embora possibilitando um retorno para o investidor individual, produz uma alteração qualitativa ainda maior, no Fundo Civilizacional de todos os Seres Humanos.
10 de Março de 2010-03-10
José Augusto de Jesus Roque

2010/03/09

Apresentação do livro "Quedo(s) e Calado(s)"

O nosso amigo e colaborador do blogue, João Cerveira, acaba de publicar um livro "QUEDO(S) E CALADO(S)", tendo-nos dado o prazer de fazer a sua apresentação pública, na Livraria/Café "Sabores do Livro", nos dias 12 e 19 do corrente mês de Março, pelas 21h e 30m.
Assim convidamos todos os interessados a associarem-se a este evento.

José Augusto de Jesus Roque

2010/03/07

Reflexão sobre o filme "Precious"

Acabei de chegar do cinema. Fui ver o “Precious”. Ainda não sei bem o que dizer e como o fazer. Na minha memória cinéfila há poucos filmes que me deixaram com um nó difícil de desfazer e este foi um deles. É, indiscutivelmente, para mim, um filme que deve ser visto em grupo e depois debatido.

Esta minha reflexão padece, por isso, dessa falta de distanciamento e quiçá, de uma segunda ou talvez terceira visualização. Mas a necessidade de me libertar dele, leva-me a dizer já o que penso, qual catarse purificadora através do fogo da emoção.

A uma primeira parte onde a estória se vai desenrolando sem nos criar grandes solavancos, segue-se uma segunda onde o sobressalto é quase permanente.

A uma primeira parte onde essencialmente há cenas de interior, na casa e na escola, sendo que as da casa são pautadas por campos de luzes indirectas, sem incidência sobre os personagens que ficam quase e sempre na penumbra ou numa obscura iluminação, segue-se uma segunda parte onde os campos de luzes são mais claros, com filmagens em interiores e exteriores com boa iluminação.

A uma primeira parte onde quase não há discurso da protagonista, que fala por monossílabos ou pequenas fases, segue-se uma segunda onde esse discurso se vai desprendendo, desenvolvendo e tendo conteúdo.

A uma primeira parte que, talvez pelo tipo de iluminação e tipo de discurso da protagonista, os actos relatados não passam, para nós espectadores, disso mesmo, de meros factos que pela descritiva narrativa não nos chamando à acção, segue-se uma segunda onde, através do assumir de protagonismo da protagonista (passo a redundância) e ao aparecimento de campos de iluminação bem definidos, nos leva para a acção, apelando ao nosso exame crítico e interventivo para o que se está passar.

A uma primeira parte caracterizada por um discurso racista (o que é que a puta dessa branca vem fazer a minha casa), segue-se uma segunda onde o discurso de unidade de racial de Martin Luther King (I have a dream) ressoa, situação esta, aliás, obtida também através da própria comunidade educativa, ela racialmente plural.

A uma primeira parte onde predomina a desordem de uma escola com turmas com bastantes alunos, segue-se uma segunda de sucesso de um projecto educativo alternativo com meia dúzia de alunos.

A uma primeira parte de campos de focagem são fixos (apesar de alguns travellings), segue-se uma segunda onde, nas intervenções mais tensas, o cameraman faz movimentos bruscos horizontais e verticais, como se os nosso próprios olhos não aguentassem manter-se fixos na personagem que está a dizer o se texto e tivessem momentaneamente de se desviar à procura de socorro.

Enquanto a protagonista não assume as dores de alma e de corpo das violências que lhe foram infligidas, nós não assumimos esse seu mal, acompanhamo-lo como meros espectadores, somos até complacentes com algum mal que lhe é infligido, em razão do seu comportamento socialmente desviante (roubar a comida no restaurante e o processo pessoal na segurança social e agredir miúdos do bairro e da escola), ao facto dela ser feia e de não reagir contra o modo como a mão a trata.

Mas quando ela verbaliza: para mim o amor é a violência, a violação, o dizerem que sou gorda e que não sei fazer nada, o trazerem-me a morte... Aí sim... aí sentimos a dor dela. Aí opera-se a ruptura com o passado através da assumpção crítica do mal que lhe tinham feito.

Até esse momento fomos quase cúmplices da mãe, e por isso temos uma reacção profundamente adversa às explicações que ela dá. Causam-nos nojo. No fundo é a nossa culpa a defender-nos, a dizer que a culpa é só dela, mas a verdade é que nós fomos testemunhas, também, dessa violência e mais ou menos aceitamo-la como fazendo parte do enredo. Não nos mexeu a barriga. Não nos fez sair da sala de cinema. Quando a mãe começa a falar com a assistente social, aí queremos assistir a tudo (embora, por medo e sentimento de culpa, fugindo-nos os olhos) para sermos juízes e a podermos condenar, expiando assim os nossos pecados. Sobre este momento da narrativa é interessante realçar o facto de ter havido no filme uma cena onde se indicia a existência de violência sexual da própria mãe sobre a filha, mas a final, aquando daquela entrevista, esse facto não foi debatido, daí se podendo concluir que a filha o não terá revelado. Porquê? Isso não sei explicar.

A escolha de actores que não são estrelas de hollywood, sendo que a protagonista é mesmo feia e a mãe não lhe fica atrás. A escolha na origem racial dos personagens: negros e emigrantes, de bairros periféricos de NY: Harlem e Bronx. Tudo isto cria uma envolvência mais próxima de nós, simples mortais.

Para mim, todos os bons filmes têm uma frase que os caracteriza. Neste é a seguinte: uma caminha inicia-se com um primeiro passo. A estória contada é a de um percurso humano de violência cuja libertação se inicia com um passo, o da educação.

Interessante, e também de realçar, é a abordagem preconceituosa de quem não tem quadro de valores, ou melhor, para quem os mesmos estão completamente alterados: a protagonista ao ver a professora a falar e a conviver com uma amiga vê nelas lésbicas, embora depois aceite, preconceituosamente, também, que foram os não homossexuais que lhe trouxeram todos os males do mundo.

A abordagem à problemática do HIV é bastante positiva, não só no que tange à reacção da comunidade que com ela vive, que não a exclui, antes pelo contrário, a incentivou a viver, ao ponto dela afirmar que sabe que vai morrer mas até lá tem de trata dos filhos, de os educar e de lhes dar amor.

Notas finais: ela era mesmo boa a matemática, demonstrando-o no final, nas contas que fez para determinação do salário hora pago às empregadas domésticas. Os americanos, definitivamente, não dão ponto sem nó: neste filme, onde se fazem referências à Oprah, é feito por uma produtora dela, aproveitando-se ela do mesmo para fazer publicidade. Talvez por isso mesmo, até já me não me lembro do conteúdo dos diálogos onde ela é referenciada.

S. Pedre do do Sul, 07/03/2010, João Carlos Gralheiro

2010/03/02

"Quem eu quero não me quer, quem me quer eu mando embora" ou uma Livraria/Café, que se quer afirmar em S. Pedro do Sul



Que se esconda a mão que ajuda para que a outra não veja, pode ser encarado como verdadeira caridade. Mas a mão que lança a pedra e foge, acarretando que outrem possa ser responsabilizado por tal acto, é uma falta grave que não pode ter a aprovação de qualquer ser humano de boa fé.
Muitas vezes é reclamada dos políticos, uma declaração de interesses, antes do início de qualquer mandato, de forma a evitar abusos, mas também, para evitar que alguém possa ser nomeado por actos que não praticou. Nesta esteira, compete-me também fazer uma declaração de interesses, já que vou tecer algumas considerações sobre a forma como aqui nas nossas bandas, se reage ao novo ou mesmo a pequenas pedradas no charco que alguns promovem.
Sou o proprietário da Livraria Café “Sabores do Livro” na Rua Serpa Pinto, nº 586 R/C, em S. Pedro do Sul, portanto sou o primeiro interessado que este espaço seja suficientemente frequentado, para que dele possa também retirar vantagens económicas. Porém, a minha postura neste caso não se fica apenas por aí, pois que na génese deste meu investimento, pesaram razões bem mais importantes e que se prendem com aquilo que julgo ser um dever de cidadania – emprestar o meu pequeno contributo, para que as mudanças, mesmo que pequenas, se façam. É nesse sentido que se compreende a instalação desta Livraria, que como toda a gente sabe, está muito longe de corresponder a um negócio atractivo em Terras de Lafões (penso que noutras paragens não será muito melhor).

Feita a dita declaração de interesses, aqui deixo algumas reflexões:

1) Desde há muitos anos que estou em S. Pedro do Sul (25 anos) e que ouço muita gente a queixar-se que não tínhamos um Cine-Teatro operacional (é verdade que as obras no mesmo, se prolongaram por muito tempo, mesmo demasiado);

2) Dizemos também que não temos indústria em S. Pedro do Sul e que o comércio é fraco e que não responde às nossas necessidades;

3) É igualmente verdade que é habitual dizermos que não há um espaço acolhedor, onde se possa ler em sossego e ou tertuliar;

Poderia enumerar muitas mais situações em que os eternos profissionais da queixa que somos nós, nos queixamos, nos queixamos, mas...

1) O Cine-Teatro está já operacional e como todos sabemos tem programadas actividades quase todos os sábados. Mesmo que seja questionável o tipo de programação que nos oferece, sobre a qual eu não me pronuncio, a sua frequência fica muito aquém do esperado e do desejável, (eu próprio sou dos que vou poucas vezes e naturalmente tenho as minhas razões, como cada um terá as suas);
2) Sobre a indústria, as responsabilidades podem ser assacadas a quem deveria promover o desenvolvimento industrial e que se o pôde fazer, não o fez. Mas em relação ao comercio, como é que nós os habitantes do burgo nos comportamos? Estamos verdadeiramente empenhados em apoiar o nosso comércio, fortalecendo-nos nós próprios, através da força que conseguimos dar aos outros, ou muito simplesmente, substituímos o “comprar cá dentro” pelo “comprar lá fora”? Pareceria ser linear, que ao apoiar o meu vizinho comprando nele, eu teria muito mais possibilidades de vir a ter retorno, pois que ele tenderia a vir comprar, ou a utilizar serviços, que eu tivesse disponíveis para lhe fornecer.

3) E agora voltamos ao tal interesse. Não me parece que existam assim tantas Livrarias-Café à nossa volta, que suscitem a presença de muitos de nós. Foram muitos aqueles, a quem ouvi reclamar da falta de um local em S. Pedro do Sul, onde calmamente se pudesse falar/conversar e onde se pudessem realizar actividades culturais. Esse facto era apontado então, como uma grande limitação ao usufruto de um tempo livre altamente gratificante. Alguns desses queixosos, cada vez menos felizmente, como dizia o outro...não se têm visto por aí.


S. Pedro do Sul, 25 de Fevereiro de 2009

José Augusto de Jesus Roque

P.S. Esta carta foi escrita em 25 de Fevereiro de 2008 e não foi publicada porque alguns amigos me disseram que eu corria o risco de não ser compreendido.
Mas como o tempo se encarrega de nos tirar ou dar razão, desta vez dispensei a consulta aos amigos e decidi publicá-la.
Encontrando-me com o mesmo estado de espírito de Antero de Quental, quando em 1871, escreveu uma carta ao Marquês de àvila, ministro do reino, a propósito do encerramento das Conferências do Casino e ressalvando as enormes diferenças e a devida proporção, penso que nem o sonhador, nem o sonho, nem os outros, passarão à história. Mas, se por ironia do destino, tal acontecer, folgo de deixar aos vindouros que: - Em 2008 houve um homem que teve um sonho do tamanho de uma livraria/café e que ousou realizá-lo; Que acreditou que em S. Pedro do Sul, outrora terra de poetas, sendo hoje terra de artistas e que se diz terra de cultura, pudessem acarinhar tal sonho. Porém, eles não compreenderam e eu, o sonhador, enganei-me. Por isso tenho a franqueza caridosa de aqui o dizer.

S. Pedro do Sul, 02/03/2010